El Niño 2026/2027: Impactos na Safra e no Crédito Rural em Mato Grosso

O ano-safra 2026/2027 começa sob a influência de um dos episódios de El Niño mais fortes já monitorados no país. Segundo o Painel El Niño 2026-2027 (Boletim Mensal nº 03, agosto/2026), elaborado conjuntamente por INMET, INPE, ANA, CEMADEN, SGB, SEDEC e CENSIPAM, a NOAA declarou formalmente o estabelecimento do fenômeno em 11 de junho de 2026, com probabilidade superior a 90% de que ele se torne muito forte no trimestre setembro-outubro-novembro (SON) e 69% de chance de ser o mais intenso desde 1950. Para o produtor rural de Mato Grosso, isso não é apenas uma informação meteorológica, é um fator que pode comprometer diretamente a produtividade da safra e, por consequência, a capacidade de honrar contratos de custeio, investimento e comercialização já firmados. Este boletim reúne, em linguagem acessível, o que os órgãos oficiais projetam para o Estado e por que a documentação técnica da eventual perda, por meio do Laudo Agronômico de Frustração de Safra, deve começar a ser organizada desde já, e não apenas quando o problema já estiver instalado. 1. O que os órgãos oficiais projetam para Mato Grosso A previsão climática sazonal para o trimestre setembro-outubro-novembro de 2026, elaborada por CPTEC/INPE, INMET e FUNCEME, aponta maior probabilidade de chuvas abaixo da faixa normal justamente em Mato Grosso, no Tocantins, no norte de Goiás, em Minas Gerais e no Espírito Santo — ao contrário da Região Sul, onde se espera chuva acima da média. Já a previsão de temperatura indica maior probabilidade de valores acima do normal em praticamente todo o território nacional, incluindo o Centro-Oeste. Especificamente sobre a Amazônia Legal e o Pantanal, que abrangem parte relevante do território mato-grossense, o CENSIPAM projeta chuvas abaixo da média no norte de Mato Grosso, com temperaturas acima da média em toda a região. A previsão reforça a possibilidade de atraso no início da estação chuvosa no centro e sul da Amazônia Legal, prolongando as condições típicas de estiagem durante parte da primavera. Em resumo, para Mato Grosso: Chuvas abaixo da média esperada, sobretudo no norte do Estado, com possível atraso no início das chuvas.Temperaturas acima da média em toda a região, elevando a demanda evaporativa e o déficit hídrico.Risco de fogo classificado entre os mais elevados do país, concentrado em Mato Grosso e áreas adjacentes.Cinco municípios mato-grossenses já registraram evolução de seca moderada para seca severa entre junho e julho de 2026 (Índice Integrado de Seca – IIS-3/Cemaden). 2. Efeitos esperados sobre a safra 2026/2027 O boletim das instituições oficiais é direto quanto à Região Centro-Oeste: chuvas abaixo da média em Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal poderão dificultar o estabelecimento inicial das culturas de verão, além de agravar a deficiência hídrica e o risco de incêndios. O tempo seco tende a favorecer a conclusão das colheitas em curso, mas pode atrasar a implantação da nova safra. Ainda segundo a projeção, a recuperação da umidade esperada para novembro poderá beneficiar semeaduras tardias, mas mesmo nesse cenário mais favorável, eventuais veranicos (períodos de estiagem dentro da própria estação chuvosa) podem afetar a soja em fases críticas de desenvolvimento. Some-se a isso o aumento projetado no número de ondas de calor no período, o que intensifica o estresse hídrico das culturas mesmo quando há alguma chuva. Isso significa que produtores de soja, milho (primeira e segunda safra) e algodão em Mato Grosso podem enfrentar atraso ou falha no estabelecimento da lavoura, redução de produtividade por déficit hídrico em fases críticas, maior incidência de veranicos durante o ciclo, e exposição elevada a incêndios e queimadas — fatores que, isolados ou combinados, podem configurar frustração de safra. 3. O reflexo direto no crédito rural Toda operação de crédito rural pressupõe uma produtividade esperada, calculada com base no histórico da propriedade e da região. Quando a safra frustra, o produtor pode não gerar receita suficiente para honrar essas obrigações nos vencimentos pactuados, o que, sem a documentação adequada, tende a ser tratado pelo credor como simples inadimplência, e não como resultado de um evento climático que escapa ao controle do produtor. A legislação e a jurisprudência oferecem instrumentos para lidar com esse cenário, mas eles dependem de comprovação técnica objetiva. 4. A comprovação técnica não pode esperar Um ponto costuma passar despercebido pelo produtor até ser tarde demais: a comprovação de que houve frustração de safra, e de qual foi a sua causa e dimensão, não se constrói depois do prejuízo consumado. Ela depende de dados que precisam ser reunidos ao longo da própria safra: época de plantio, registros fotográficos datados e georreferenciados da lavoura, boletins meteorológicos da região, comparação entre a produtividade esperada e a efetivamente obtida, e o histórico produtivo da própria área. É exatamente esse o papel do Laudo Agronômico de Frustração de Safra: um documento técnico, elaborado e assinado por engenheiro agrônomo, que analisa e quantifica a perda de produção de uma lavoura, identifica suas causas — climáticas, fitossanitárias, operacionais ou outras — e compara o resultado obtido com o que seria esperado em condições normais de cultivo, para a mesma área, cultura, região e nível tecnológico. Ele não substitui a análise jurídica, contratual ou securitária, mas é a base técnica que sustenta essas análises perante bancos, seguradoras, tradings e o Poder Judiciário. Diante do cenário climático projetado para 2026/2027 em Mato Grosso, recomendamos que o produtor comece a organizar essa documentação já durante a implantação da safra. Quanto mais cedo o acompanhamento técnico se inicia, mais completo e robusto tende a ser o laudo, e maior a segurança nas negociações de crédito, nos sinistros de seguro e, se necessário, em processos judiciais. 5. Orientações práticas ao produtor Este boletim tem caráter exclusivamente informativo, com base nos dados públicos do Painel El Niño 2026-2027 (Boletim Mensal nº 03 – INMET, INPE, ANA, CEMADEN, SGB, SEDEC e CENSIPAM, agosto/2026). Ele não substitui a análise individualizada de cada caso, tampouco constitui aconselhamento jurídico, financeiro ou agronômico específico. Para uma avaliação da situação da sua propriedade e da sua operação de crédito rural, entre em contato com nossa equipe.